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Consequência do desastre de Brumadinho na saúde coletiva

Os impactos da contaminação da água provocada pelos rejeitos da barragem liberados nos rios afetam a saúde da população local e de regiões distantes.

 Depois de 14 dias de buscas, até o dia 7 de fevereiro, haviam sido encontrados 157 mortos na lama de rejeitos da barragem da Vale, em Brumadinho, MG. Ainda outras 182 pessoas continuavam desaparecidas, entre funcionários da mineradora e moradores locais.

Consequência do desastre de Brumadinho na saúde coletiva

Imagem: oglobo

A barragem, que rompeu em 25 de janeiro deste ano, liberou 13 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério de ferro, que chegaram ao rio Paraopeba. A barragem da Vale era considerada uma estrutura de porte médio para a contenção de rejeitos de minério de ferro da Vale.

Seu risco de rompimento e seu dano potencial em caso de acidente foram minimizados. Dois relatórios de inspeção na barragem de Brumadinho foram realizados cinco meses antes de toda estrutura ruir e apontaram problemas na estrutura. Mesmo assim, os engenheiros responsáveis pelas avaliações não consideraram os problemas graves para comprometer a barragem e atestaram sua segurança.

Segundo estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que analisou impactos na saúde após rompimento de barragem de Brumadinho, existe agora o risco de surtos de dengue, febre amarela, esquistossomose e leptospirose. Além disso, pacientes com doenças crônicas, como hipertensão e diabetes podem ter seus problemas agravados.

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Imagem: oglobo

A Fiocruz fez um levantamento com base em informações fornecidas por secretarias de saúde da região, estudos realizados com desastres semelhantes, como o que ocorreu com a barragem de Mariana, MG e outros dados de sistemas públicos.

Problemas de saúde pelo desequilíbrio ecológico

Foi observado um padrão comum nos problemas de saúde que sucedem aos desastres, o mesmo que em caso de eventos climáticos. O estudo destacou que a área de Brumadinho é endêmica para febre amarela e esquistossomose, que são transmitidos por mosquitos e caramujos, respectivamente. Segundo a Fiocruz, o rompimento da barragem provoca uma alteração no ecossistema, que mata predadores naturais e cria condições favoráveis para o aumento dos vetores das doenças. Assim, há um aumento da população de mosquitos e caramujos, causando surtos. Ao mesmo tempo, o atendimento de saúde da região é afetado, o que afeta o controle das doenças.

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Imagem: https://oglobo

Problemas de saúde pelos impactos no saneamento

As estruturas físicas de unidades de saúde de Brumadinho não foram atingidas. Mas os agentes comunitários de saúde também perderam pessoas da família, os recursos humanos foram afetados e em consequência, também os atendimentos. Os serviços públicos de saneamento, como coleta de lixo, abastecimento de água e coleta de esgoto foram suspensos ou grandemente prejudicados, o que é um fator que tem muito impacto na saúde. Com a ausência de coleta de lixo começam a se proliferar os ratos, o que aumenta o risco de leptospirose.

Problemas de saúde pela contaminação da água

O rio Paraopeba, contaminado em Brumadinho, passa ainda por vários municípios. A captação de água de Brumadinho não é feita diretamente do Paraopeba, mas há o risco da contaminação se estender pelos cursos de água e também chegar a poços de abastecimento e irrigação.

Além disso, quando ocorre a contaminação dos rios, muitas gente passa a armazenar água em casa, mas de forma incorreta. Segundo o representante da Fiocruz informou à imprensa, isso ocorreu no desastre da barragem de Mariana, o que levou a um surto de dengue.

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Outro problema é a possibilidade de consumo de alimentos irrigados com água contaminada, o que causa diarreia e gastroenterites. A intoxicação também pode ocorrer também por vias áreas, porque os contaminantes ficam no ar quando a lama seca, chegando ao sistema respiratório dos habitantes da região. Há noticias de que pessoas que tiveram contato com a lama em Brumadinho apresentaram náuseas, vômitos e diarreia, mostrando intoxicação.

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Imagem: gazetadopovo

Existe a possibilidade de pacientes com doenças crônicas, como hipertensão, diabetes e problemas renais que dependem de hemodiálise, terem acesso limitado aos serviços de saúde que necessitam com regularidade. No caso das comunidades que ficaram isoladas pela lama, essa situação se agrava, o paciente não é acompanhado ou fica sem receita para um medicamento. Os que têm predisposição para alguma doença, o trauma pode aumentar essa probabilidade. Foi observado que depois de desastres como enchentes ou mesmo desastres nucleares, a ocorrência de AVCs aumenta.

Os pesquisadores da Fiocruz defendem que é preciso monitorar essa população por anos. O que acontece é que depois da grande mobilização do resgate chega a depressão e as pessoas passam a apresentar problemas de alcoolismo, depressão e  suicídio. Os impactos do desastre na saúde são amplos. A conta imediata dos danos chega para o setor público, mas é dever da empresa contribuir para cobrir com os custos totais do desastre.

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Imagem: oglobo

É grande a possibilidade de contaminação do rio São Francisco

Para evitar o avanço do material tóxico pelo rio Paraopeba até o rio São Francisco, a Val instalou três filtros para conter os rejeitos. No entanto, segundo o pesquisador Christovam Barcellos, pesquisador Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde e doutor em Geociências, a instalação de contenções no rio Paraopeba são insuficientes. E alerta para o fato de que várias cidades da Bahia, Alagoas, Sergipe e Pernambuco usam a água do São Francisco.

Segundo ele, é preciso um programa constante e bem executado de vigilância da qualidade da água, principalmente quanto à contaminação por para metais pesados. É possível que a lama tóxica chegue à represa de Três Marias, que fica na região do São Francisco. Barreiras no rio não retêm esses elementos tóxicos da água, alerta o cientista. Não há como conter a lama. Mesmo que a represa de Três Marias seja muito grande, a represa se tornará um problema, porque seu fundo estará carregado por metais pesados.

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Imagem: brasil

O Centro de Estudos e Pesquisas em Emergências e Desastres em Saúde da Fiocruz informou que o monitoramente deverá ser constante nas águas de pelo menos 41 municípios mineiros. Um total de 1,3 milhão de pessoas estará sujeito à contaminação. Mas se o rio São Francisco receber a lama tóxica, esse número de pessoas será muito maior. Os prejuízos à fauna e vegetação serão incalculáveis.

Ainda não foram divulgados os resultados dos exames feitos com amostras dos rejeitos derramados. Além dos problemas de saúde mais imediatos, no caso de contaminação com metais pesados ocorrem transtornos neurológicos a longo prazo, a depender da concentração. Foram identificados mercúrio, cádmio e chumbo, que efeitos que podem ser identificados até dez anos depois da tragédia.

O impacto sobre a saúde coletiva, portanto, vai muito além das mortes já constatadas pelo rompimento da barragem, que devem ultrapassar 300. O pesquisador Carlos Machado, do Centro de Estudos e Pesquisas em Emergências e Desastres em Saúde da Fiocruz (Cepedes/Fiocruz), comenta que os danos ambientais vão se refletir em danos à saúde, não somente da população local, mas de cidades vizinhas e possivelmente se estendendo até vários estados do nordeste do país. As pessoas sobreviventes ou que tiveram membros da família mortos na tragédia vão precisar de atendimento psicológico, de cuidados em saúde mental. Torna-se evidente que o SUS (Sistema Único de Saúde) tem um papel de enorme importância para atender essa demanda. O mais preocupante é que existem, segundo ele, 24 mil barragens no país e apenas 3% têm planos de ação de emergência.

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